quinta-feira, 12 de março de 2015

Não desista do Brasil

 
 
 
 
Maria Flor,
 
esta semana estávamos zapeando os canais da TV quando paramos por alguns minutos em um noticiário desses que passam todas as noites. Depois de ouvir algumas manchetes você olhou para mim e me surpreendeu com a pergunta: "mãe, por que eles dizem tantas besteiras?". Incrível, filha, como você aos quatro anos, já tem o pensamento perspicaz para algumas coisas.
 
Flor, atualmente vivemos um momento delicado no Brasil. Nossa política, economia e sociedade estão passando por mudanças e nem sempre isso agrada a todos. Você já ouviu muita gente reclamar do Governo, mal educadamente xingar nossa presidente e ameaçar sair do país porque não acha justo pagar tantos impostos em benefício de um sistema corrupto.
 
Meu amor, eles esquecem que um país é feito por seus cidadãos. Esquecem que furar fila, não respeitar o código de trânsito, dar carteirada para burlar leis, também é corrupção. Flor, tem muita elite fazendo panelaço para manter suas empregadas domésticas mexendo em suas panelas a preço de uma cama, de comer na cozinha e "passear" de branco no shopping atrás dos patrões.
 
Minha princesa, elas ignoram que todos temos direitos, da criança que nasce em berço de ouro ao trabalhador rural do sertão dos Inhamuns. Cada cidadão, Maria, tem o direito de ter oportunidades de estudar se assim quiser, de manter-se no campo se assim deseja, de poder comprar sua casa, de um transporte de qualidade e tantas outras necessidades que tornem a sua vida digna e feliz.
 
Porém, para que isso aconteça, é preciso lutar. A eterna luta de classes apregoada por Karl Max (se você ainda não tiver lido, procure conhecer sua obra, lhe ajudará bastante). É preciso, filha, que cada um de nós exerçamos nosso papel como responsáveis por isso. Não basta, Maria Flor, apenas pagar impostos e votar durante as eleições. Precisamos praticar em nosso cotidiano, abdicar de alguns direitos pelo outro, sermos corretos e realmente justos. Meu bem, você, seus irmãos e cada um de nós somos fundamentais para um país melhor.
 
E para sermos justos com toda a situação, não está fácil. Ainda vemos corrupção na política, pessoas agindo de má fé. A energia elétrica aumentou, o dólar também, talvez não dê certo aquela nossa viagem de final do ano. Tem problema não, filha, vai passar, ficará melhor.
 
Com amor,
 
sua mãe.
 
* O que eu estava ouvindo: Sweet Dreams - Marilyn Manson; Budapest - George Ezra; Green Hair - Supla; Janta - Marcelo Camelo e Mallu Magalhães; Heartbeats - José Gonzales

quarta-feira, 4 de março de 2015

Vamos falar sério

 

Lucas,
 
Você tem nove anos, é uma criança e guarda ainda muito da inocência em seus julgamentos. Mesmo assim acho que está na hora de termos uma conversa séria. Vi que apesar de toda essa pureza, você já percebe muita coisa e demonstra cada vez mais interesse em discutir a construção de uma sociedade mais justa. Saiba que eu e seu pai valorizamos muito essa sua qualidade e sempre lhe incentivaremos a seguir nesse caminho.
 
Hoje falamos sobre homossexualismo. Pensei muito se deveria abordar esse tema com você. Realmente me pego a pensar se a melhor maneira de formar uma opinião positiva em você e seus irmãos é agindo com naturalidade, não tocando no assunto, simplesmente vivendo. Mas diante de uma sociedade que todos os dias grita seus preconceitos, de várias formas, das mais agressivas às travestidas de inocentes, achei melhor deixar bem claro alguns pontos.
 
Filho, você chegou da escola e eu resolvi lhe mostrar o clipe "Take Me To Church", do cantor irlandês, Hozier. No clipe aparecem cenas de um casal homossexual se beijando e sendo perseguido por um grupo de rapazes encapuzados e selvagens. Não te contei do que se tratava até que você assistisse por completo. Quis ver sua reação, saber a sua percepção sobre o que estava assistindo. Ao final, ao perguntar sobre o que achou, você me responde com uma pergunta: "Mãe, por que eles estão sendo vândalos?".
 
Luquinhas, essa é exatamente a questão. Questione sempre a violência, nunca o amor. O amor, meu menino, é sempre louvável, independente de como se apresenta. Todos nós temos o direito de amar, de vivermos o que somos, de constituir família e não precisar se esconder.
 
Todos nós temos o dever de respeitar o próximo, de não invadir sua liberdade, de não julgar o outro sob nossas crenças. Saiba, meu bem, compreender que seu pensamento é apenas uma face da verdade e que outras verdades podem coexistir sem incômodo.
 
Mantenha-se dessa forma, perplexo diante das agressões. Não acostume-se com as injustiças, não ache qualquer preconceito justificável. E lembre-se que o nosso Deus acolhe a todos, sem distinção.
 
Com muito amor,
 
mamãe.
 
* O que estava ouvindo: "Take Me To Church" - Hozier; "We Can't Stop" - Miley Cyrus; "Someone Like You" - Adele; "Addicted to You" - Avicii