segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Siga, respire fundo e encare.

 
 
 
Lucas,

já há algum tempo você tem pesadelos e medos que não lhe deixam dormir bem certas noites. Nestes dias, você costuma me chamar ou ir logo correndo para meu quarto, buscando proteção entre mim e seu pai. Porém, eu nunca permito que você fique entre meus lençóis, em certos momentos sou dura e até mesmo peço que volte ao seu quarto, pois está tudo bem.

Filho, peço que você não me julgue mal. Não ajo dessa forma porque não me importo com seu bem estar ou porque não me preocupo o suficiente. Nada disso. Esta foi a forma, meu amor, que eu encontrei para lhe ensinar que é preciso coragem.

Luquinhas, quando soube que estava grávida de você também me bateu um medo enorme. Por mais que soubesse que eu iria adorar ser sua mãe, naquele momento a notícia da sua chegada foi de me tirar o chão. Discuti com seu pai, tracei todos os caminhos possíveis, desabafei com dois amigos até me dar conta de que o medo poderia me levar por uma caminho que não gostaria de trilhar. Assim, filho, quando percebi o que estava acontecendo cheguei a conclusão que o melhor seria encarar.

Sabe, filho, eu não me arrependo em nada da minha decisão. Junto com a atitude de encarar me veio transformações internas profundas. Me trouxe um outro mundo, novas possibilidades e a certeza de que eu sou capaz de enfrentar muito mais do que eu julgava ser antes de tudo.

Lucas, toda essa história é para te dizer que medo todos nós sentimos. Não há vergonha ou fraqueza em sentir-se inseguro. Porém, é preciso coragem para enfrentar, é preciso seguir em frente, superar-se. Só dessa forma, filho, só encarando é que você conhecerá o outro lado da vida, só enfrentando algumas chuvas que você conhecerá o arco-íris. E eu lhe garanto, por experiência própria, que a gente sai do pesadelo ainda mais fortalecido, cada dia mais corajoso e sempre maior.
 
Não se preocupe, Luquinhas, eu também te garanto uma outra coisa: você não precisará estar aninhado em minha cama para que eu te sirva de remédio toda vez que uma "dor" insistir em não passar. Eu, meu filho, sempre irei lhe velar, meus ouvidos estarão atentos ao seu menor sussurro. Eu estou com você, PARA SEMPRE.
 
 
Te amo,
 
mamãe.
 
* O que eu estava ouvindo: Janta (Mallu Magalhães e Marcelo Camelo); Heartbeats (José Gonzales); Tocando em frente (Almir Sater); Hero Kensan (Drew Danburry).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Não estique seu cabelo





Maria Flor,

você com certeza não viu, mas na semana passada o assunto que "quebrou" a internet foi o bumbum da Paolla Oliveira. Achei engraçado, porque pra mim, isso só me prova que enquanto sociedade ainda vivemos o "frescor" da adolescência e seu frisson pelos corpos desnudos. Mas, filha, esse não é exatamente o assunto pelo qual lhe escrevo, você mesma viverá esse momento e eu só espero que seja com um pouco mais de moderação do que alguns jovens que vejo por aí.

Na verdade, para além da bunda da Paolla (nada contra), as reações e abordagens, de pessoas próximas a veículos de comunicação, foram o que mais me chamou atenção. Já faz um tempo (e bastante porque ainda me lembro da época de criança) parece ter ficado decidido, quem não tem um bonito par de glúteos, um cabelo liso e loiro, cintura fina, um corpo esguio e outras exigências, está fadado a ser um pouco menos bonito que os demais. E assim, porque todo mundo quer estar no grupo mais amado, haja comparações cruéis, cobranças e tratamentos estéticos que prometem transformar todas em Paolla.

Filha, mas as coisas não são nada assim. Acredite, há outras belezas, outros formatos, outros encantos. Por favor, não caia no canto da padronização, que nos impõe o peso, formato de corpo, cor de cabelo, tamanho de peito. Maria Flor, não estique seus cabelos.

Saiba, meu amor, que todos nós temos beleza. Que cada ser humano é único, que nosso valor não está na casca e que toda aparência se torna atraente quando o que sai de dentro é verdadeiro e natural.

Maria, vista-se de sorrisos largos, de uma simpatia sincera. Aceite seu jeito, suas formas, sua cor e maneira de falar. Não mude pelos outros. Não se deixe enquadrar em padrões. Assuma-se para não viver na escravidão de quem persegue um sonho que não é o seu. Não desperdice os prazeres de
ser quem é.

Mude, mas só se valer à pena. Se for por você, se quiser. Cuide da saúde, mantenha sua chama vital. Ame-se minha filha, e não repuxe seu cabelo.

Com carinho,

mamãe.

Trilha sonora: A Sky Full of Stars (Coldplay); Prayer in C (Lilly Wood & The Prick and Robin Schulz); Stay with Me (Sam Smith).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Da anarquia que nos trazem as crianças



Lucas, Maria Flor e Tom.

2015 começou e achei este um ano lindo para recomeçarmos por aqui. Os últimos meses foram de grandes mudanças. Apesar de não ter parecido, nenhum de nós passou ileso, e deixamos 2014 com transformações profundas em nossa alma. Por isso, uma nova fase, novos capítulos aqui começam a ser escritos.

Meus amores, vocês estão crescendo, compreendem, cada um a sua forma, o que se passa ao redor. Eu e seu pai ficamos felizes por isso e por toda essa diversidade de pensamento que temos em casa. Apesar de os conduzir pelo mesmo fio condutor, não temos a pretensão de padronizá-los, nem fazê-los repetir a nossa história. Queremos apenas marcá-los com valores que achamos corretos e que acreditamos que irão levá-los para uma vida mais feliz.

Capitaneado pelo Lucas, ultimamente vocês uniram-se pelo questionamento das regras e a reivindicação da liberdade. Para ser sincera, esse movimento insurgente tem nos provocado um certo desconforto, principalmente a mim, confesso. Até então estávamos acostumados com crianças que obedeciam quase cegamente aos nossos comandos. Mesmo assim, não preocupem-se, o anarquismo trazido por vocês  é saudável e nos faz refletir sobre regras bobas como não se permitir a um sorvete em plena quarta-feira à noite.

Filhos, regras são apenas processos que devem tornar nossa vida mais organizada e prática, e não um mecanismo que nos torna escravo de qualquer coisa. A disciplina implantada aqui em casa não tem o objetivo de torná-los mecânicos, enformá-los em atividades cronometradas e sem criatividade. Pelo contrário, a ideia é nos organizarmos para tornar possível o viver de cada um de nós, dar espaço para que o outro possa embarcar numa aula de música, no balé, cumpra o horário do trabalho e que vocês mantenham o bom humor por meio de horas de sono necessárias. Não tenham pressa, não se preocupem, um dia vocês compreenderão, a vida com seu próprio desenrolar lhes proporcionará esse aprendizado.

Mas por enquanto, sejam crianças. Vivam a rebeldia de quem não tem compromisso com nada além da alegria. Nos resgatem da sisudez dos adultos e dos compromissos de gente grande. Nós, seus pais, também precisamos disso.

Com amor,

mamãe.

Trilha Sonora: Partículas de Amor - Lucas Santtana; Para o Inverno Passar Depressa - Leo Fressato ; On Top of the World - Imagine Dragons.